A gente reduz essa história a um sermão sobre mentira, e perde a pergunta que fecha o caso.
Pedro pergunta:
“Guardando-a, não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder?” Atos 5.4
Duas afirmações, e são as duas mais seguras do capítulo inteiro. Enquanto a terra não estava vendida, era dele. E depois de vendida, o dinheiro continuava à disposição dele.
Ou seja: o que Pedro estabelece, com a boca do próprio apóstolo, é que Ananias tinha domínio sobre aquele bem e sobre aquele valor. Ele não era obrigado a entregar o preço inteiro.
A retenção, em si, não é o que Pedro ataca. Ele mesmo acabou de dizer que o valor estava em poder do homem.
Antes de Ananias, teve Barnabé
“E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.” Atos 4.32
E então, no meio dessa descrição geral, aparece um nome: José, cognominado pelos apóstolos Barnabé, levita, natural de Chipre, que possuindo uma herdade, vendeu-a, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos.
Repara no que o texto faz, não no que eu acho que ele quis fazer: depois de descrever todo mundo, ele individualiza um homem, com nome, apelido, tribo e origem. E o versículo seguinte começa com uma adversativa:
“Mas um certo homem, chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade.” Atos 5.1
Barnabé, e mas Ananias.
Essa justaposição é fato. O que vem agora é a minha leitura dela, e eu marco: parece contraste montado. Um homem que trouxe o preço, e logo em seguida um homem que trouxe parte dizendo que era o preço.
Eu já preguei que Ananias viu a honra que Barnabé recebeu, viu a régua subir e quis o mesmo lugar sem pagar o mesmo preço. Isso soa perfeito. E não está em Atos em lugar nenhum.
O texto não diz que Barnabé foi honrado publicamente. Não diz que Ananias assistiu. Não diz que ele queria status. Atos nunca informa por que Ananias mentiu.
E eu resolvi deixar esse buraco aberto de propósito, porque ele te alcança melhor vazio.
Você não vai sair daqui com o motivo dele. Vai ter que ir buscar o seu.
A parte que a gente acha inofensiva
“E reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos.” Atos 5.2
O dinheiro entregue era real, está escrito que ele depositou parte do preço. A fraude não foi no dinheiro. Foi na apresentação: parte entregue como se fosse o todo.
E olha onde isso acontece. Numa comunidade descrita como sendo de um coração e uma alma, onde os recursos eram repartidos conforme a necessidade de cada um.
O perigo, então, não era o limite dele. Era a distância entre o que ele fez e o que ele deixou parecer.
Se você decidiu guardar uma parte, guarda. Mas então não entra na fila de quem está entregando tudo com cara de quem entregou.
Ele mentiu pra quem?
“Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a, não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.” Atos 5.3-4
Eu costumava dizer: “Ananias achava que estava enganando os apóstolos, mas estava enganando o Espírito Santo.” O texto não diz isso.
Primeira razão: Atos não informa o que Ananias pensava. Não sabemos quem ele achava que estava enganando.
Segunda, e essa é teologicamente séria: o texto diz que ele mentiu ao Espírito Santo. Não diz que o Espírito foi enganado. E não podia dizer: Pedro descreve a fraude antes que qualquer um a descobrisse por meios normais.
Ninguém engana o Espírito Santo. Você só consegue mentir na cara d'Ele, sabendo ou não que Ele está ali.
E olha o mecanismo que Pedro nomeia: Satanás encheu o coração dele. E na mesma respiração: por que formaste este desígnio em teu coração? As duas coisas juntas. Pedro não absolve Ananias apontando Satanás. Ele cobra o desígnio.
Um testemunho levemente aumentado. Uma quantia mencionada por alto. Um “estou orando por isso” que não corresponde a um minuto de oração. Uma frase no grupo dos homens sobre o quanto você tem buscado a Deus, dita numa semana em que você não abriu a Bíblia.
Nada disso derruba ninguém no chão. Mas a mentira não foi classificada como assunto entre homens.
Você achou que estava ajustando a sua imagem diante de um grupo. O endereço da frase era outro.
A parte da Safira
Depois que Ananias caiu, os moços o amortalharam, levaram e sepultaram. E então:
“E, passado o espaço de quase três horas, entrou também sua mulher, não sabendo o que havia acontecido.” Atos 5.7
Eu costumava dizer que ela teve três horas para reconsiderar e escolheu manter a mentira. O versículo diz exatamente o contrário: ela entrou não sabendo o que havia acontecido.
Não houve intervalo de reconsideração. Ela não sabia de nada.
E o texto me dá algo melhor no lugar.
“E disse-lhe Pedro: Dize-me, vendestes por tanto aquela herdade? E ela disse: Sim, por tanto.”
“Então Pedro lhe disse: Por que é que entre vós vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor?” Atos 5.8-9
Concertastes. Combinaram.
E o v.2 já tinha dito: ele reteve parte sabendo-o também sua mulher.
Não preciso das três horas. O acordo do casal é texto, duas vezes. Ela sabia da retenção antes, e Pedro afirma que houve combinação entre os dois. Sem plateia, sem pressão, sem calor do momento, chegando sozinha e sem contexto nenhum, ela repetiu o número.