“Há tantos anos que te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos.” Lucas 15.29
A aparência
Ele estava no campo.
Enquanto o irmão mais novo dissipava a herança numa terra distante, esse homem estava onde deveria estar.
E isso já é informação suficiente. Porque quem chega diante do pai com a folha corrida na mão está tratando a própria história como defesa.
Agora saia do primeiro século comigo por um instante, porque o texto não fala desse homem, mas você conhece ele.
Quarenta e poucos anos. Paga as contas em dia. Nunca faltou dinheiro dentro de casa. Está na igreja há quase duas décadas, é dizimista, ninguém precisa cobrar nada dele. Ele resolve. Sempre resolveu. É quem os outros procuram quando o problema é sério, e ele gosta disso, discretamente.
E ele está do lado de fora da festa. Isso o texto diz: indignou-se e não queria entrar.
O diagnóstico
Repara na ordem exata dos fatos, porque ela importa.
Ele chega do campo. Ouve música e danças. Chama um dos criados e pergunta o que está acontecendo. Nesse momento ele ainda não sabe de nada. É pergunta de quem acabou de chegar.
O criado responde: seu irmão voltou, e seu pai matou o novilho cevado porque o recebeu são e salvo.
É aí que ele se indigna e decide não entrar.
A informação estava disponível. A porta estava aberta. A festa era da casa dele.
O que travou aquele homem não foi falta de dado. Foi o que o dado significava. Ele soube que o irmão voltou e escolheu o lado de fora.
Aí vem a frase que abre o peito dele: “há tantos anos que te sirvo.” O verbo grego ali é douleuō, servir como escravo.
O problema é o que ele pendura na frase logo em seguida: e nunca me deste um cabrito.
Ele contou os anos. Guardou a lista das ordens cumpridas. E apresentou tudo isso como quem chega no caixa. O texto não abre o coração dele para nós, mas a boca já basta: aquela não é fala de filho pedindo. É fala de quem acha que já pagou.
E olha a ironia que Lucas monta, porque ela é devastadora.
O filho mais novo, no chiqueiro, ensaiou um discurso: faze-me como um dos teus trabalhadores assalariados. Ele voltou pra casa disposto a ser empregado. O filho mais velho, que nunca saiu, descreve a própria vida com o verbo de escravo.
Os dois queriam ser funcionários.
Um descobriu que era filho quando o pai correu ao seu encontro. O outro ainda estava no portão, discutindo salário.
E repara no que ele faz com o parentesco: ele não diz “meu irmão”. Diz “esse teu filho”. O pai não deixa passar. Na última frase da parábola, devolve a palavra corrigida: era preciso que nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu.
O filho tinha desfeito o vínculo na frase. O pai o refez na resposta.