Você acorda, cumpre o protocolo, entrega o resultado e mantém o sistema rodando.
Ninguém desconfia de nada porque na superfície você funciona bem. Mas você sabe exatamente qual é a área travada.
Pode ser o silêncio de três anos entre você e a sua mulher. Pode ser o que você consome de madrugada com a casa dormindo. Pode ser aquela apatia que transformou a sua vida com Deus numa cerimônia de domingo às dez da manhã.
E o problema não é ter uma área travada. Todo homem tem. O problema é que você aprendeu a administrar aquilo.
Com o tempo você foi ajustando a rotina, os horários e as justificativas até que a fratura virasse um detalhe inevitável da sua história.
Você reorganizou a vida inteira em volta da própria doença e chamou isso de equilíbrio.
“Queres ser curado?” João 5.6
Antes de tudo, uma coisa precisa ser dita
Aquele homem estava enfermo havia trinta e oito anos. É o único número que o texto dá, e ele se refere à doença, não ao tempo que ele estava naquele tanque, não ao tempo daquela esteira.
E dentro dessa cena, João não diz por que ele estava doente. Não diz que era preguiça, não diz que era falta de fé, não diz que era pecado escondido. Jesus não o repreende por estar deitado.
Se você está com o corpo quebrado, com depressão diagnosticada, com uma perda que não cicatrizou, não deixa ninguém usar esse devocional pra te chicotear. Doença é doença.
Procurar médico e tratamento é sabedoria, não fraqueza. E isso eu digo por convicção pastoral, não porque João 5 fale de médico.
O que vou confrontar aqui é outra coisa: a área da sua vida em que você já sabe o que precisa ser feito e vem escolhendo não fazer há anos, protegido por uma justificativa que soa razoável.
Essa área você conhece. Ela tem nome.
Trinta e oito anos e um sistema montado
O texto registra um dado que a maioria passa batido.
“Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim havia muito tempo…” João 5.6
Havia muito tempo. João faz questão de dizer que Cristo sabia disso antes de abrir a boca. A pergunta não foi feita a um doente qualquer. Foi feita a um homem cuja condição já tinha história.
Quando uma ferida ou um padrão de pecado se estende por anos, a gente não busca cura. A gente imobiliza a área.
Você faz igual quem torceu o joelho e passou a andar mancando: adapta a marcha, evita a escada, muda o caminho, e depois de um tempo esquece que aquilo doía.
O homem ríspido diz que é o temperamento dele, sempre foi assim, a família inteira é assim. O ausente culpa a cota de trabalho, que ele chama de sustento. O que vive dividido diz que ninguém é perfeito, e usa essa frase pra nunca tratar o que o Espírito já expôs faz tempo.
O sistema roda liso por fora enquanto seca por dentro.
E Deus não sonda pra descobrir algo que Ele não sabe. Ele sonda pra trazer à luz o que você se recusa a admitir sobre si mesmo.
Ele não respondeu sim
Presta atenção nisso, porque é onde eu preciso ser mais cuidadoso do que costumo ser.
Jesus pergunta: queres ser curado? E o homem não diz sim. Não diz “quero, Senhor”. Ele responde outra coisa:
“Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada; pois, enquanto eu vou, desce outro antes de mim.” João 5.7
João não classifica a resposta. Não chama de desculpa, não chama de fé.
O que o texto registra é isto, e só isto: perguntaram se ele queria e ele respondeu falando do que faltava.
E é aí que a coisa te alcança, não porque o homem seja culpado, mas porque você conhece esse reflexo.
Alguém te pergunta sobre aquela área da sua vida e você não responde. Você explica.
“Estou esperando o tempo de Deus.” Às vezes é verdade. Às vezes é o nome bonito da sua indisciplina.
“Estou buscando direção.” Pra uma decisão que a Escritura já respondeu e você só não quer pagar o preço.
“Quando as coisas acalmarem eu retomo.” Elas nunca acalmam. Você sabe disso.
E olha o que Jesus faz com aquela resposta: nada. Não corrige. Não discute o tanque. Não pede que ele responda direito primeiro. O v.8 vem em cima, por conta própria.
Guarda isso, porque é a melhor notícia deste texto: Cristo não esperou o homem dar a resposta certa.