A ordem era clara.
Fere a Amaleque e destrói totalmente tudo o que tiver. Saul foi. Venceu a batalha. E poupou Agague e o melhor das ovelhas, das vacas, dos animais gordos e dos cordeiros.
Então veio a palavra: arrependo-me de haver posto a Saul como rei, porquanto deixou de me seguir e não executou as minhas palavras. E o versículo continua: Samuel se contristou e clamou ao Senhor a noite toda.
Quando amanheceu, o profeta madrugou pra encontrar Saul. E a notícia que chegou até ele foi essa:
“Já chegou Saul ao Carmelo, e eis que levantou para si uma coluna.”1 Samuel 15.12
Um homem passou a noite inteira clamando por outro.
E a primeira informação da manhã foi que o outro tinha erguido um monumento pra si mesmo.
A doutrina virou escudo
Homem gosta de garantia. Contrato assinado, apólice, sistema previsível. E quando traz isso pro altar, transforma doutrina em cláusula de imunidade.
O versículo preferido pra isso está em Números, na boca de Balaão: Deus não é homem, para que minta, nem filho do homem, para que se arrependa.
A leitura que a gente faz por baixo é: se Ele me escolheu, se Ele falou comigo naquele retiro em 2019, está fechado. Ele fica obrigado a me sustentar independentemente do que eu faça daqui pra frente.
E agora repara na coisa mais espantosa do capítulo que estamos lendo: as duas afirmações estão dentro dele.
No v.11, Deus diz a Samuel que se arrependeu de ter posto Saul. No v.29, Samuel diz a Saul que a Força de Israel não mente nem se arrepende, porque não é homem para que se arrependa.
Emissores diferentes, momentos diferentes, mesma palavra hebraica nos dois lugares.
O que dá pra dizer com honestidade é isto: a leitura que a tradição cristã ocidental consolidou é que a Escritura usa linguagem humana pra descrever algo real. Deus não muda de caráter nem de propósito, mas o trato d'Ele com o homem muda quando o homem muda. Não é a única leitura possível, e eu digo que fico com essa por escolha, não porque todo mundo concorde.
O que o capítulo não permite, de jeito nenhum, é o uso que você anda fazendo.
Você está pegando a imutabilidade de Deus e transformando em desculpa pra não mudar a sua conduta.
Isso não é confiar na soberania d'Ele. É tentar arrastar Deus pra dentro de um acordo de cumplicidade com a sua desobediência.
O propósito ficou. O sujeito foi trocado.
Deus não estava improvisando quando levantou aquele homem. O texto descreve Saul como mais alto que todo o povo dos ombros pra cima, moço e belo. Escolhido diante da nação inteira, com o povo gritando viva o rei.
E olha a razão que ele mesmo dá pelo que fez:
“Temi o povo e dei ouvidos à sua voz.”1 Samuel 15.24
Não foi arrogância de quem se acha maior que Deus. Foi medo de gente. Ele obedeceu a alguém. Só não foi a Quem devia.
E quando isso aconteceu, o propósito não caiu. Só o homem caiu. Dentre os filhos de Jessé, Deus se proveu de um rei.
O plano continuou. Sem ele.
E é aqui que muito homem está morrendo por dentro hoje. Você vem sustentando à força uma coisa que Deus já encerrou. Agarrado numa palavra que Ele falou há dez anos, sobre uma temporada que já terminou, enquanto a estrutura continua funcionando e você usa isso como prova de que está tudo bem.
O texto registra o que veio depois: o Espírito do Senhor se retirou de Saul. E mesmo assim a coroa continuou na cabeça dele por bastante narrativa. O reino continuou de pé. A rotina continuou.
Estrutura funcionando não é o mesmo que Deus presente.
O argumento e o balido
Samuel chega. E antes de qualquer pergunta, Saul abre a boca primeiro: bendito sejas tu do Senhor; cumpri a palavra do Senhor.
Se for isso, é mais grave. Mentiroso sabe que está mentindo. Esse homem talvez já não soubesse.
“Que balido, pois, de ovelhas é este aos meus ouvidos, e o mugido de bois que ouço?”1 Samuel 15.14
O argumento dele durou uma frase.
Os animais estavam ali, e o profeta os ouviu. Não preciso encenar mais nada em cima disso: o homem declarou obediência e a prova em contrário estava fazendo barulho.
“De Amaleque os trouxeram, porque o povo poupou o melhor das ovelhas e das vacas, para as oferecer ao Senhor teu Deus.”1 Samuel 15.15
Duas coisas nessa frase. Ele culpa o povo, e repete isso no v.21. E veste a desobediência de piedade.
Toda a teologia daquele homem era medo de gente com roupa de zelo.
Você faz isso. Você tem uma explicação boa pra aquilo que não larga. Ela tem base bíblica, tem contexto, tem atenuante, e você já testou mentalmente umas vinte vezes e sabe que ela se sustenta numa discussão.
Homem bom de argumento é ruim de arrependimento.
Obedecer é melhor que sacrificar
“Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.”1 Samuel 15.22
Saul estava tentando pagar com liturgia o que devia em obediência.
Você conhece essa moeda. Não larga aquilo, mas aumenta a oferta. Não conserta o que quebrou dentro de casa, mas assume mais um serviço na igreja. Não pede perdão pra sua mulher, mas leva a família pra passear no fim de semana.
Deus não aceita pagamento cruzado.
E a cena seguinte sela: virando-se Samuel para se ir, ele lhe pegou pela orla da capa e a rasgou. O Senhor tem rasgado de ti hoje o reino de Israel, e o tem dado ao teu próximo, melhor do que tu.