Jonas anunciou o juízo. Nínive ouviu. Deus poupou a cidade. E o profeta ficou furioso.
Essa é uma das cenas mais desconcertantes de toda a Bíblia. O homem enviado por Deus cumpre sua missão, a mensagem produz resposta e uma cidade inteira abandona o mau caminho. Qualquer pregador chamaria isso de avivamento. Jonas chamou de desastre.
O profeta que se irritou com a misericórdia
Deus havia ordenado: “Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e clama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim.” Nínive não era uma cidade injustiçada. Deus não ignorava sua violência.
Jonas fugiu. Desceu para Jope. Entrou num navio. Foi lançado ao mar. Passou pelo ventre do grande peixe. Depois de tudo isso, recebeu novamente a mesma ordem. Dessa vez, foi.
Ao chegar a Nínive, anunciou: “Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída.” A cidade reagiu. O povo creu em Deus, proclamou jejum e vestiu pano de saco. O rei desceu do trono, tirou o manto e também se assentou sobre cinzas.
Para Jonas, misericórdia. Para Nínive, fogo.
Jonas sabia que Deus era misericordioso. E fugiu porque havia a possibilidade de essa misericórdia alcançar Nínive. Ele não tinha uma definição errada sobre Deus. Sua confissão estava correta: Deus é clemente, misericordioso, tardio em irar-se e grande em bondade.
O problema começou quando Deus agiu de acordo com eles.
Misericórdia pra nós, juízo pros outros
Quando erramos, apresentamos o contexto. “Eu estava cansado.” “Não foi minha intenção.” “Você não sabe o que eu estava vivendo.”
Quando o outro erra conosco, esquecemos o contexto. Enxergamos somente o ato. Queremos que aquela falha defina a pessoa inteira, de preferência para sempre.
Para o nosso pecado, explicação. Para o pecado alheio, sentença.
Isso não significa que desejar justiça seja pecado. A Bíblia reconhece a justiça de Deus e não manda ninguém tratar o mal como algo pequeno. O problema começa quando usamos a palavra “justiça” para dar uma aparência santa à nossa vontade de vingança.
Perdoar é retirar das próprias mãos o direito à vingança. É parar de alimentar a cena em que o outro sofre e você finalmente se sente compensado.
A planta, a sombra e o coração exposto
Depois de discutir com Deus, Jonas sai da cidade e se senta do lado oriental de Nínive. Fez uma cabana e se assentou debaixo dela, à sombra, até ver o que aconteceria à cidade.
Deus fez crescer uma planta sobre ele. A planta cobriu sua cabeça e trouxe alívio. Jonas ficou profundamente feliz.
É impressionante: a única vez em que o livro registra uma grande alegria de Jonas é por causa de uma sombra. Ele não se alegrou com a resposta de Nínive. Alegrou-se com o próprio conforto.
Então Deus designou um verme. A planta secou. Depois veio um vento oriental abrasador, e o sol castigou a cabeça do profeta. Jonas desfaleceu e voltou a pedir a morte.
“Tiveste compaixão da planta, que não te custou trabalho, a qual não fizeste crescer [...] e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive, em que há mais de cento e vinte mil pessoas?”Jonas 4.10-11
Jonas sofreu mais pela perda da sombra do que pela possível destruição de uma cidade.
Antes de apontar para Jonas, olhe para a sua própria sombra. Talvez sua planta seja o cargo que você perdeu. O projeto que não saiu. O reconhecimento que foi dado a outro homem. A rotina que mudou sem pedir licença.
O que o Senhor confrontou foi a proporção. Jonas tinha lágrimas para a planta e raiva para Nínive. E você?
Quando a misericórdia de Deus ofende o nosso orgulho
Jonas conhecia o caráter de Deus. O que ele não suportava era a liberdade de Deus para demonstrar misericórdia a quem quisesse.
Às vezes, não queremos apenas que o pecado seja confrontado. Queremos escolher o castigo. Queremos definir quando o outro sofreu o bastante. Queremos decidir quem pode ser restaurado e quem precisa carregar o rótulo até morrer.
Isso é orgulho vestido de zelo.
Você não se tornou defensor da santidade só porque está com raiva. Seu ressentimento não vira discernimento porque ganhou um versículo. E a pessoa que feriu você não saiu do alcance de Deus porque você decidiu parar de orar por ela.
Enquanto você imagina o dia da queda do outro, aquela pessoa continua morando dentro da sua cabeça sem pagar aluguel. Determina seu humor, ocupa suas orações e contamina a maneira como você enxerga gente nova.
O mal que fizeram uma vez continua acontecendo dentro de você todas as manhãs.
Entregue a justiça a Deus. Ele não perdeu nenhuma prova. Não esqueceu a conversa. Não deixou passar a mentira. O Juiz do universo não precisa que você passe a madrugada organizando o processo.
E se houver arrependimento verdadeiro, Deus continua livre para conceder misericórdia. Essa parte pode doer mais. Talvez você aceite que Deus julgue. O que ainda não aceita é que Ele perdoe.