A maioria das pregações sobre esse texto gasta o fôlego tentando diminuir a tempestade. Monta a historinha: se Jesus está no barco, o vento colabora, o mar deita, a viagem é mansa. Isso é conversa de quem nunca remou de madrugada com água na canela.
Marcos não escreveu isso. Marcos escreveu homem com medo de morrer, barco enchendo, e Deus dormindo no meio.
E escreveu uma coisa que quase ninguém prega. No fim da história, com o mar liso e o vento morto, aqueles homens estavam mais apavorados do que quando achavam que iam afundar.
Depois. Sem risco nenhum.
É disso que eu vim falar.
Ele mandou. Não explicou.
“Naquele dia, ao anoitecer, disse-lhes Jesus: Passemos para o outro lado.” Marcos 4.35
Jesus não reuniu os doze para consultar a previsão do tempo. Não pediu opinião dos quatro pescadores profissionais que estavam ali, homens que conheciam aquele lago melhor que a própria casa. Falou uma frase e virou as costas: passemos para o outro lado.
Repara na hora. Ao anoitecer. Ele está empurrando aqueles homens para dentro do escuro de propósito.
E o “outro lado” era terra de gentio. Território pagão, criação de porco, gente que nunca tinha ouvido falar de aliança nenhuma. Obedecer àquela ordem significava atravessar mais do que água. Era atravessar a fronteira de tudo que eles chamavam de limpo.
Você quer o mapa antes de sair. Chama isso de prudência.
Deus chama de negociação.
No Reino a ordem vem primeiro e o entendimento vem depois, se vier. Quando o Soberano manda atravessar, o outro lado já está garantido dentro da própria ordem. O que os seus olhos veem no escuro não muda uma vírgula do que a boca d’Ele falou.
Assim como estava
“E eles, deixando a multidão, o levaram consigo, assim como estava, no barco…” Marcos 4.36
Três palavras que quase todo mundo pula. Assim como estava.
Jesus estava acabado. Tinha ensinado o dia inteiro, curado gente, expulsado demônio, aguentado multidão empurrando desde cedo. Entrou no barco moído. Foi para a popa, deitou a cabeça num travesseiro e apagou.
O Filho de Deus dormindo enquanto o barco balança.
A sua fé aguenta um Deus calado?
Porque crer quando a resposta chega não é fé. É reação a resultado. Descrente também faz isso.
O sono d’Ele não é ausência. O silêncio d’Ele não rasgou aliança nenhuma. A madeira daquele barco continuou inteira porque Ele estava dentro, acordado ou não. Você quer barulho para se sentir seguro. A sua segurança nunca esteve no barulho. Sempre esteve em quem divide o barco com você.
A água que entrava
“E levantou-se uma grande tempestade de vento, e as ondas batiam no barco, de modo que este já se enchia de água…” Marcos 4.37
Não foi chuvinha pedagógica.
O vento desceu das montanhas em cima daquele lago como sempre desceu, sem aviso, e transformou a água em parede. Onda passando por cima da borda. O mastro rangendo de um jeito que madeira não deveria ranger. A vela estalando como chicote.
O barco começou a pesar.
Essa é a parte que a maioria não entende porque nunca esteve dentro de um. Barco que enche não afunda de uma vez. Ele vai ficando lento. Vai respondendo mal ao leme. Vai subindo cada vez menos na onda seguinte. E os homens que vivem daquilo sabem ler isso. Eles conseguem contar, mais ou menos, quantas ondas ainda faltam.
Eles jogavam água para fora com as mãos, com balde, com o que tinha. E a água voltava mais rápido do que saía.
Pedro cresceu naquele lago. Tirou o sustento dali a vida inteira. André, Tiago, João, a mesma coisa. Não eram turistas com medo de mar. Eram homens que conheciam a diferença entre uma noite ruim e uma noite que mata.
Aquela era das que matam.
Foi aí que eles olharam para trás e viram Jesus dormindo. E a frase saiu:
“Mestre, não te importa que morramos?” Marcos 4.38
Escuta o que está escondido dentro dela. Não é pedido de socorro. Pedido de socorro é “salva-nos”. Isso é outra coisa.
Isso é acusação.
É homem encharcado, com a voz alterada, dizendo na cara: o Senhor não liga. O Senhor está confortável enquanto eu me arrebento aqui.
A tempestade não criou aquela dúvida. Ela só puxou para a superfície o que já estava boiando no fundo daqueles homens antes do primeiro sopro de vento.